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Senescência, senilidade, superação e ópera: o que isso tudo tem em comum? Imprimir E-mail
Escrito por: Dr. Thiago Monaco – dr.thiago@envelhecerbem.com   
Graças a meu pai e meu avô paterno, de origem italiana, passei a infância ouvindo tenores italianos. Enrico Caruso, Tito Schipa, Mario del Monaco, Beniamino Gigli e (palavras do meu avô) "este que é mais recente mas canta muito bem" - Luciano Pavarotti. Hoje entendo: eram os anos 1980 e os primeiros já estavam mortos; o último, sei hoje que estava no auge de sua carreira, mas na época obviamente não tinha sua carreira já escrita. 

Trinta anos e outros tantos tenores, barítonos, baixos, sopranos e contraltos depois, uma gravação em patricular, pelo Pavarotti, me comoveu. Não por ser perfeita, pois não é; mas pela imperfeição daquele que sabe que nunca será páreo para aquilo que ele já foi; pela superação e coragem daquele que apresenta, com muito esforço, uma interpretação competente daquilo que, tinta anos antes, ele fazia sem esforço e à perfeição Pavarotti cuidou de sua voz. Lembro-me de uma entrevista em que ele dizia tratar sua garganta como qualquer bom músico trataria seu instrumento. Como médico, é o que eu aprendi a recomendar a meus pacientes em relação ao corpo todo. Nosso corpo e nossos órgãos são, afinal, os instrumentos com que vivemos. 

É certo que nosso corpo envelhecerá, assim como a voz de Pavarotti envelheceu. É normal envelhecer, num processo natural que chamamos de senescência. Mas também é certo que a maioria esmagadora dos idosos do mundo sofrem e se limitam não pela senescência, mas pelo resultado dos maus hábitos de vida, como a falta de atividade física, os excessos na alimentação e no álcool, os descuidos com os tratamentos das eventuais doenças crônicas que teremos e por causa do fumo. Em conjunto, estes fatores, todos evitáveis ou tratáveis, nos envelhecem muito mais do que deveríamos envelhecer. Isto nos torna frágeis décadas antes da hora, num processo que chamamos de senilidade. 

O que a ópera tem a ver com isso? Ela exemplifica de modo vibrante estes dois conceitos. O magnífico Caruso era um grande fumante, hábito que à época, não se sabia ser tão ruim como é hoje. Sua voz, no entanto, exibiu nítida senilidade. 

Comparemos sua gravação de "Una furtiva lagrima", de 1904, no início de sua discografia, 



com uma de suas últimas gravações, "Cruxifixus", de 1920:



Sua voz, nitidamente de tenor (clara e aguda), toma uma cor mais escura, mesmo quando sustenta as mesmas notas. Caruso não era idoso: tinha 47 anos em 1920 (morreria aos 48). 

Pavarotti, ao contrário, foi um tenor longevo; já famoso no meio musical, tornou-se quase um "pop-star" quando seu single "Nessun Dorma", gravado para promover a Copa do Mundo de Futebol da Itália (1990) rodou o mundo, tendo sido top-10 da rádio britânica, por exemplo. Desde então, tanto se apresentou com esta ária que ela virou sua assinatura. 

Chegamos ao vídeo que me chamou tanto a atenção: em 2006, Pavarotti cantou pela última vez em público; pouco tempo depois seria diagnosticado com o câncer de pâncreas que o vitimou em 2007. Ao cantar seu último "Nessun Dorma", Pavarotti tinha 70 anos de idade. 



Sua senescência vocal, normal para um tenor de 70 anos cantando a plenos pulmões uma música que termina com um si agudo de peito sustentado, é evidente apenas se comparamos Pavarotti com ele mesmo; aqui o vemos em seu auge, em uma gravação de 1980, na época em que meu avô colocou um de seus LPs ao lado dos 78rpms de Caruso:



A gravação de 1980 é perfeita; emociona porque Puccini, o autor, escreveu uma obra-prima, brilhantemente executada pela orquestra e pelo tenor que a canta à perfeição. A gravação de 2006 emociona porque, da capo al fine, sobressai a pessoa do tenor, que sabe mais do que todos que nunca será capaz de repetir a interpretação perfeita de 36 anos antes, mas, ainda assim, canta a partitura com uma beleza que muitos jovens tenores jamais reproduzirão; canta com uma clareza vocal que Caruso já não tinha aos 47 anos, porque ele, Pavarotti, pôde evitar a senilidade vocal, tornando explícito aquilo que podemos fazer quando cuidamos de nossa saúde e envelhecemos bem. 

Por definição, nós nunca superaremos o nosso auge, mas quando envelhecemos bem e somamos uma boa dose de auto-superação a isto, nós superamos o inimaginável. 


Bravo, maestro. 




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